Com que insolência este amor volta a bater à minha porta. Já não chega o que fizeste comigo. Já não chega todo mal me causaste. Me fez provar do mel, mas restou, e ainda vive, em minha boca, o fel, amargo, ardido. Nada mais será como outrora. Nunca mais sentirei o amor em seu mais elevado esplendor, livre de amarras. Agora estou amarrada, amarrada ás lembranças do que me foi o amor. Lembranças duras, que me cortam a alma, que me dilaceram o corpo. Que arrancam a cada dia, e todo dia mais, um pedaço de mim, do que foi minha alegria, do que foi a razão de minha existência... Oh amor... por que fizeste isto comigo? Por que não me deixaste viver na ilusão, uma inverdade é certo, mas um conforto para uma alma imatura. Dor como está nunca mais sentirei, dor como está jamais ninguém sentirá. Tira-me o chão, o apetite, o sono, o deleite aos prazeres. Nada mais faço que me torne feliz. Tudo é dor, tudo é amargura. Uma constante luta pela sobrevivência, mas não tal qual o pescador que espera o momento certeiro de prender o peixe em sua isca, não há paciência. A luta diária é, para, mais uma vez, permitir ou talvez desejar, que a razão prevaleça sobre a emoção. Que me traga reconforto, que ao menos diminua minha dor. Essa é minha luta. E agora vens tu, amor, querer entrar novamente em minha casa, tirar de mim o pouco que ainda resta, a minha enfraquecida dignidade. Brincando com meus sonhos como se fossem fantoches? Colorindo o que se tornou preto-e-branco? Não, não posso deixar que me leve o pouco que me sobrou, na incerta esperança de que possa me dar o que tanto desejo. Conheces meus sonhos, mas também meus medos. Sabes o medo que tenho de ser novamente ludibriada. Não permita que minha vida torne-se somente dor. Vá! Vá para longe de mim. Me deixes ao menos com minha dor, que esta, tenho certeza, não é mentira, nem tão pouco ilusão.
Texto escrito em junho/2007
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