
Uma mulher pode tentar se esconder para não ver as devastações da sua vida, mas o sangramento, a perda da energia da vida, continuará até que ela reconheça a real natureza do predador e o domine.
Quando as mulheres abrem as portas das suas próprias vidas e examinam o massacre nesses cantos remotos, na maior parte das vezes elas percebem que estiveram permitindo o assassinato de seus sonhos, objetivos e esperanças mais cruciais. Encontram sem vida idéias, sentimentos e desejos; aquilo que um dia foi gracioso e promissor está agora esgotado até a sua última gota de sangue. Se esses sonhos e esperanças estiverem vinculados ao desejo de um relacionamento, de uma realização, de obter sucesso, ou de uma obra de arte, quando ocorre essa apavorante descoberta na psique, podemos ter certeza de que o predador natural, também frequentemente simbolizado nos sonhos como o noivo animal, esteve trabalhando metodicamente na destruição dos desejos mais caros à mulher.
(Mulheres que correm com lobos - Clarissa Pinkola Estés)
Era uma vez uma menininha, de alma límpida, cândida e gentil que achava que todo o mundo era bom e que não existia maldade.
Nessa cega ingenuidade, um dia, não mais comum que todos os outros, ela encontrou um sujeitinho - bem inho mesmo - que de repente começou a se achegar mansamente, sorrateiramente, tal qual uma trepadeira que, quando menos se percebe, já tomou posse de todo o espaço e sufoca as outras plantas ao seu redor até a morte.
Esse senhor Inho - bem inho mesmo - precisava de ajuda, probrezinho, tão inho...
E pedia, e clamava e implorava por atenção, por cuidado...
Essa tola menininha, de coração também tolo, acreditou que poderia ajudá-lo e fez disso seu principal objetivo, afinal nunca! never! jamé! negaria ajuda a um aflito, ainda mais tão inho.
Claro que como toda menininha ingênua ela tinha muitos planos para conservar seu mundo perfeito, como dar água aos camelos no deserto, florir os túmulos para que eles não ficassem tão "sem vida", abrigar as pobres ratazanas gestantes rejeitadas e muitos outros ideais altruísticos que, com certeza, mudariam o mundo.
Mas por hora abandonou-os;, ela tinha um ideal maior que todos, fazer este sujeitinho - tão inho - viver! Existiria objetivo maior de vida senão ver a vida sem vida reviver?
Mas ela não sabia que para dar vida ao outro, era de sua própria vida que ela estaria se desfazendo. E como poderia saber? Ela era apenas uma menininha tola.
E lentamente ele foi se apossando dela toda. Mas isso aconteceu aos pedaços, pequenos pedaços, imperceptíveis pedaços. Primeiro um fiozinho caído de seu cabelo, depois uma lasca de unha quebrada, depois seu dedo mindinho da mão esquerda, depois toda sua mão esquerda, e a direita também, e seguindo, e seguindo... até mesmo seu pé, que nem era tão pézinho assim, ele se apossou...
Mas o golpe derradeiro mesmo foi quando ele inundou seu coração. Seu coração já não era mais seu; era dele, como ela toda... inclusive seus sonhos, planos, projetos... tudo era ele e dele.
Mas não se iludam vocês acreditando que ele se apossou dela lentamente para que a dor fosse menor, para que ela não sentisse arrancar-lhe as entranhas de uma única vez. Ele só fez lentamente para que ela não percebesse que o que havia de precioso em sua vida lhe estava sendo usurpado, surrupiado, roubado, extirpado - e quantos mais ados couberem - e que nada sobraria dela ou para ela.
E foi isso que aconteceu: ela definhou e definhou e definhou... poderia dizer definhou até a morte, mas como isso é um conto e em contos a alma gentil sempre tem uma nova chance, ela não definhou até a morte, mas quase.
E ela, moribunda, teve uma nova chance!
Ainda havia um filete de sangue em suas veias... nas artérias, na corrente sanguinea toda e ela decidiu usar esse filete para salvar uma vida, essa era sua chance.
Agora pasmem!
A vida que ela decidiu salvar não foi a sua, mas a dele.Mas tudo se justifica: quando ela o deixou ele ficou ainda mais inho e a impressão que ela tinha (impressão errada claro, porque ela continuava tola) e que ele estava mais inho que nunca - Um sujeitinho tão pobrezinho...
E ela deu o resto que lhe sobrava de sangue, seu fino filete de sangue , tudo que lhe restava de vida... afinal todo o resto já tinha lhe sido roubado... sonhos, todos os sonhos, aqueles sonhos... sua razão de viver, sua vida de sonhos, seu sonho de vida.
E ela morreu.
Mas a história não acaba aqui... Não esqueçam do senhor Inho. Ele sobreviveu e agora todos os dias o senhor Inho, ser muito gentil que é, leva-lhe flores, para que ela não fique parecendo tão "sem vida".